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A Semana (ou dezena) « para ver de outro modo », ou ainda « para domesticar as telas ».

14 de setembro de 2020

De que se trata?

A « Semana para domesticar as telas », também chamada « Semana para ver de outro modo » é um exemplo de boas práticas segundo o parecer da Academia das ciências intitulado « A criança e as telas » publicado em 2013. Não se trata de prescindir completamente das telas durante este período. Não peçamos o impossível do qual seríamos nós mesmos incapazes! Mais modestamente, mas também de modo mais realista e eficaz, o objetivo é ensinar cada um a escolher entre as telas que estima verdadeiramente importantes para si e aquelas de menor relevância. E constituir o ponto de partida da criação de laços de proximidade, que são o melhor antídoto para o abuso de telas.  

 

A quem concerne? 

A cada um de nós juntos e separadamente! Com efeito, a maior violência das telas domésticas é encerrar seus usuários na solidão. Por isso é importante que nos mobilizemos em torno de objetivos precisos que permitam experimentar solidariedades concretas. Trata-se, pois, de uma ação coletiva, que só pode ser realizada com a inclusão de uma ou várias instituições. Ela pode se desenvolver num estabelecimento escolar, numa associação de várias unidades de ensino de um mesmo bairro ou num município. 

 

Como é preparada?

Concretamente, tal semana (ou dezena, se acrescentamos um fim de semana) só pode dar certo se o evento for preparado com muita antecedência, algo entre três e seis meses.

Na medida em que está fora de cogitação privar os usuários de suas telas sem nada oferecer em contrapartida, este período deve ser pensado como um momento de animação tanto para os adultos quanto para as crianças, e deve implicar tanto pais de alunos quanto os idosos e as diversas pessoas que se encarregam habitualmente da pedagogia e da animação. 

 

Em outras palavras, esta semana deve ser a ocasião de instalar uma grande variedade de ateliês, alguns conduzidos por animadores profissionais, outros por pedagogos, por pais e avós apaixonados o bastante por uma atividade para terem o desejo de explicá-la e arregimentar participantes. Todas as atividades são possíveis, da costura ao tricô a ateliês de fotografia ou cinema, passando pela cozinha e pelo esporte. 

 

Qual o seu principal objetivo?

Fica cada vez mais evidente que o consumo excessivo de telas está diretamente ligado ao empobrecimento do laço social tanto quanto à multiplicação de ofertas audiovisuais. Aliás, o presidente da Netflix, ao designar seu « pior inimigo », não aponta para o esporte, a amizade ou o amor, mas... para o sono! Para os fabricantes de programas, o importante é reter seus consumidores o maior tempo possível, seja lá qual for o preço que estes tenham de pagar na vida social, familiar ou escolar. 

No entanto, há muitos programas de qualidade. Mas nós os conhecemos? Será que fazemos as boas escolhas? Será que entendemos que se há prazer em olhar telas, há também um prazer às vezes ainda maior em falar delas, das paixões que elas nos inspiram, ou de nossas decepções? Em todo caso, podemos fazer das telas um suporte de socialização e não apenas de isolamento. As telas não são um problema, este é antes o modo como as deixamos invadir nossas vidas pela facilidade, e no caso de algumas pessoas, pelo desespero de não poder encontrar outro humano com quem compartilhar. 

 

Qual a diferença entre as semanas « para ver de outro modo » e as « semanas sem telas »?

Pelo anteriormente visto, há três diferenças.

Primeiramente, nosso foco é bem menos as telas e mais a criação de laços sociais diferentes entre os participantes, tanto no seio das famílias quanto nas comunidades e nas escolas. Destacamos a possibilidade para as pessoas de se conhecerem criando atividades coletivas. Para isso, propomos lançar este desafio com pelo menos três meses de antecedência de maneira que os pais se integrem logo de início ao projeto e possam se encontrar para preparar juntos o evento. Para nós, este tempo também é importante, e amiúde mais importante até que a « semana » ou a « dezena ». Por isso escolhemos chamar esta semana « para ver de outro modo ». Em nossa perspectiva, trata-se de ver de outro modo tanto as telas quanto os vizinhos. 

Em seguida, nosso objetivo não é « zero tela » pois, como mostram muitas « estadias de desintoxicação », hoje em dia propostas para a adição a telas, o risco é recomeçar depois os mesmos hábitos que se tinha antes. Na prática, convidamos crianças e adultos a escolher o que eles realmente querem assistir, e a não assistir o que menos lhes apetece.  

Partimos da ideia de que é fácil para o ser humano decidir não fazer algo, mas que é muito mais difícil parar uma fascinante atividade em curso. Quanto às telas, o problema não está nos programas que queremos assistir, mas naqueles que assistimos por desânimo, cansaço, por não ter o que fazer ou para esquecer que há algo a ser feito e que não queremos fazer. Por isso, ao convidar os participantes a escolher o que eles querem realmente assistir, trabalhamos para neles desenvolver a capacidade de autorregulação.  Pois o problema com as telas não é saber em que momento as ligamos, mas antes nunca saber em que momento desligá-las. É muito mais fácil decidir jamais ligar uma tela que aprender a desligá-la. E é por isso que priorizamos este segundo alvo.  

Finalmente, e no mesmo registro, estimulamos a criação de ateliês com diversas atividades de tela para ensinar às crianças a ter certo distanciamento frente ao que elas vão forçosamente utilizar no final da « semana » ou « dezena ». Para nós, tão importante quanto o tempo que passamos diante das telas é o que se pode fazer com elas. 

 

Como vencer o desafio de bem organizar uma « semana para ver de outro modo »?

A ideia de fazer desta semana um desafio coletivo supõe os meios para medir, antes e depois dela, o que terá sido o consumo de telas. O essencial do sucedido durante esta semana irá evidentemente muito além da questão da redução do tempo de telas umas quantas pessoas. Laços que são tecidos, crianças que aprendem com seus pais a desenvolver novas atividades, vizinhos que se ignoravam e agora descobrem suas cumplicidades, seus interesses comuns, tudo isso é mais importante que a redução do tempo de tela, mas nem tudo isso é quantificável. 

Para que a « semana para ver de outro modo » fique nas memórias como um êxito cujo caráter objetivo é compartilhável, é essencial organizar, com uns quinze dias de antecedência, uma pesquisa sobre o consumo de tela das crianças. Um questionário simples é posto à disposição de cada um, através das salas de aula, mas também dos municípios, estando também, é claro, disponível na Internet. Todos aqueles e todas aquelas que quiserem - pais, crianças, avós, pessoas sós, casais, famílias - devem anotar seu consumo quotidiano de tela durante uma semana. O mesmo questionário será preenchido a cada dia por cada um durante a « semana para domesticar as telas ». 

Onde quer que tenha sido organizada esta semana (ou dezena), a comparação das estatísticas « antes » e « depois » mostrou uma importante redução da frequentação das telas. Vale a pena insistir, o que importa é que cada um descubra outras atividades possíveis, em família ou em grupo, mas esta quantificação dos tempos de tela congrega todos os que contribuem ao êxito do evento, do animador ao participante.   

 

Um concurso de filmes por celular para adolescentes

Durante esta semana (ou dezena), o importante é prever, entre as diversas atividades propostas, ateliês de criação de imagens. Eles são, com efeito, um convite lançado a cada um para mudar de posição diante das imagens. Não permanecer numa postura de simples consumidor de imagens, mas tornar-se criador de imagens para seu próprio deleite e para o deleite dos demais. Nessa perspectiva, é interessante organizar, paralelamente às atividades propostas durante a semana, um concurso de fotografias ou de filmes realizados por adolescentes com seu celular. O desenvolvimento dessa atividade tem duas vantagens: convidar as crianças a passar da condição de consumidores passivos de tela àquela de produtores de suas próprias imagens. Em seguida, mostrar aos seus pais, avós e pedagogos que elas são capazes de fazer lindas coisas dignas de interesse. O tema deste concurso pode ser um conceito como « a amizade », « a solidariedade », « o tédio », ou um objeto concreto que poderia muito bem ser explorado por seu aspecto físico ou em suas múltiplas metáforas às quais ele pode dar lugar. Por exemplo: « a janela », o « corredor », « a ponte » etc.

 

Histórico

A ideia original remonta ao Doutor Thomas Robinson, professor da Universidade de Stanford. Em 1996-1997, ele lançou e experimentou o programa SMART (Student Media Awareness to Reduce Television – Conscientização de escolares sobre a mídia para reduzir a televisão) em duas escolas primárias de San José, na Califórnia. Seu objetivo, como o nome de seu programa já indicava (« aprender a reduzir a televisão »), não era suprimir o consumo de telas, mas de reduzi-lo. Jacque Brodeur se inspirou nesse programa para lançar sua versão no Québec em 2003, chamada « O desafio da dezena sem televisão nem videojogos », com a ambição de criar um período de desmame total das telas. 

 

Na França, a primeira experiência desse tipo foi lançada em maio de 2008 por Serge Hygen, na escola do Ziegelwasser, em Estrasburgo, e foi chamada « O desafio dos 10 dias para ver de outro modo ». Infelizmente, a mídia tratou o evento como « o desafio dos dez dias sem tela », dando assim uma falsa ideia deste. O projeto foi ainda atacado a pretexto de confundir referenciais entre escola e família. Eu o defendi (sobretudo no dia do lançamento em i-télé) enfatizando a necessidade urgente de ações que busquem reduzir o tempo de exposição às telas, mas que também fomentem oportunidades de reconstituir laços soci ais de proximidade. Em toda parte em que esta experiência foi conduzida, ela provocou transformações duradouras nos hábitos dos jovens e das famílias. Desde 2008, Ecoconseil tenta recensear a cada ano, na França, os desafios que lhe foram lançados. A revista Non Violence actualité consagrou seu número de janeiro-fevereiro de 2009 a estes desafios (www.nonviolence-actualité.org).

Desde então, outras semanas ou dezenas tiveram lugar. 

O objetivo desses desafios não é nos convencer a eliminar as telas de nossas vidas, mas nos ensinar a não ceder à tirania destas. Ao sugerir um olhar diferente sobre as telas e refletir sobre o lugar que elas ocupam em nossas vidas, essas atividades constituem primeiramente e, sobretudo, uma maneira de reaprender a viver juntos.
A associação 3-6-9-12 pode acompanhar você nesse projeto com uma conferência.

Serge Tisseron
Psiquiatra, doutor em psicologia
Serge Tissseron é psiquiatra, doutor em psicologia, diretor de pesquisas, membro da
Academia de tecnologias, pesquisador associado à Universidade de Paris (CRPMS).

 

Por Serge Tisseron

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