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EDITORIAL - DIETÉTICA E DIGITAL

14 de setembro de 2020

Nove conselhos para gerir suas telas como seus alimentos. 

Na associação 3/6/9/12, muito nos apraz evocar a metáfora alimentar para nos guiar em nosso consumo de telas. Que significa isso na prática? Primeiramente, sabemos muito bem que não é necessário que nos sentemos à mesa com amigos ou mesmo sozinhos. Podemos comer um sanduíche ao caminhar e pegar na geladeira uma alimentação pronta para o consumo. No entanto, em todas as culturas, a alimentação sempre foi objeto de numerosos rituais através dos quais o ser humano socializou esta atividade de maneira a torná-la um momento de criatividade e de partilha. 

É o que pretendemos fazer com as telas na associação 3/6/9/12.

Tomemos nove domínios importantes dos ritos alimentares e vejamos que consequências isso pode ter para a organização de nosso consumo de telas, seja ele individual, familiar ou social. 

1. Pra começar, as mamães, e os papais também, sabem que não é muito legal colocar bistecas, batatas fritas ou espaguetes nas mamadeiras dos bebês. O que não quer dizer que esses alimentos sejam tóxicos, pois se o fossem, sê-lo-iam em qualquer idade, devendo então ser banidos de nossa alimentação. Isso quer dizer apenas que o sistema digestivo do bebê não está ainda adaptado a estes alimentos. Da mesma forma, o sistema mental do bebê não está adaptado para se beneficiar com as telas. O infante não tem a capacidade de distanciamento suficiente nem em relação ao conteúdo das imagens nem em relação às emoções que estas suscitam. 

2. Em segundo lugar, em todas as culturas, as crianças são convidadas a respeitar o ritmo das refeições, ou seja, a comer em horários determinados. Em outras palavras: « Não se deve passar o dia lambiscando ». Da mesma forma, evitemos passar o dia lambiscando telas. Como adultos que somos, fixemos nossos horários para a consulta de telas e convidemos nossas crianças a fazer o mesmo.  Ao introduzir uma tela na vida de uma criança, ritualizemos este momento dando-lhe um quadro horário constante dia após dia, por exemplo, das 17h30 às 18h ou das 18h às 19h. E fixemos de preferência este momento antes de uma atividade que não possa ser transferida, por exemplo, o banho ou o jantar. 

3. Todos nós sabemos que um dos prazeres do restaurante consiste em poder escolher! Exercer sua capacidade de escolha frente a uma oferta de alimentos é mais prazeroso do que comer simplesmente o que nos oferecem. Da mesma forma, façamos com que nossa criança disponha de uma pequena dvdteca, duas ou três opções bastam, de maneira que ela possa escolher uma ou outra segundo os dias. A criança se perceberá mais facilmente a si mesma como cidadã do mundo. Além disso, vendo várias vezes os mesmos programas, ela os compreenderá melhor. 

4. Não comemos numa travessa, mas num prato. O prato representa para cada um de nós uma porção de alimento, e só depois de consumi-la é que temos eventualmente direito a uma segunda porção. O problema da televisão – mas é o mesmo para Netflix, Youtube e demais fornecedores de acesso – é que ela propõe continuamente programas à criança, sem intervalos. É como se o prato da criança volta-se a se encher automaticamente depois de ser consumido. É óbvio que, em tais condições, muitos comeriam em demasia! O DVD permite à criança não apenas escolher os programas que despertam seu interesse, mas também ver um programa que se termina e após o qual pode-se passar a outra atividade. 

5. Sabemos muito bem que comer juntos é amiúde mais agradável que comer sozinho. Com nossas crianças, vamos dar preferência às atividades com tela compartilhada.  Estabeleçamos o ritual de um longa-metragem a ser visto em grupo uma vez por semana. E vamos dar preferência aos videojogos coletivos, com proximidade física, àqueles solitários. 

6. Não se pode deixar uma criança ou um adolescente levar um pacote de biscoitos para o seu quarto a fim de consumi-lo à noite. Da mesma forma, evitemos que ele leve o celular para o quarto. Para isso, fixemos como regra familiar que cada um deixe à noite seu celular sobre a mesa do café da manhã para pegá-lo de volta na manhã seguinte.  

7.Todo mundo sabe que, durante uma refeição, os comentários sobre os alimentos são bem-vindos. É uma ocasião para falar do prato que se come, mas também de tantos outros, diferentes ou semelhantes, que comemos em outras circunstâncias. E a conversa fica animada! Da mesma forma, falemos das telas. Em 1998, escrevi um livro intitulado « Há um piloto na imagem? ». Nele, eu já escrevia então: « A televisão é não apenas o que se olha, mas aquilo de que se fala. »

8. Se comer juntos é algo agradável, comer o alimento fabricado por um dentre nós o é ainda mais. Aprendamos a fabricar nossas próprias imagens e ensinemos nossas crianças a fabricar as suas. A partir dos seis anos, não hesitemos em confiar-lhes uma máquina fotográfica digital. Isso lhes permitirá, de certo modo, ver o mundo com os seus próprios olhos! Há programas gratuitos de iniciação à programação como Scratch e outros de fabricação como Stop movie, ou seja, de filmes imagem por imagem. 

9. Finalmente, não negligenciemos as grandes transformações que se operaram em nossa relação com os alimentos nas últimas décadas. Enquanto antes insistia-se na necessidade de se comer menos, hoje em dia insiste-se na necessidade de se comer melhor. Claro, há entre nós quem coma demasiadamente, mas não são essas pessoas necessariamente as mais gordas.  A obesidade pode estar ligada a diversos fatores. No entanto, o que está amplamente demonstrado é que todos comemos mal, e até muito mal. A mesma coisa acontece com as telas. Claro, há quem as consuma em demasia. E não são necessariamente aqueles que estão pior. É possível consumir pouca tela, mas de tal forma que se torna prejudicial à vida social e ao equilíbrio mental, sobretudo com a superexposição de sua intimidade ou se implicando em práticas de ódio. Mas também é possível fazer das telas um uso criativo e socializante, sobretudo através dos jogos sociais e dos videojogos. O problema da maioria de nós não é o tempo que passamos diante das telas, mas o fato de que nossas atividades frente a estas são repetitivas, estereotipadas, pouco criativas e pouco socializantes. Já foi demonstrado que pessoas em crise, quer se trate de sofrimentos psíquicos e/ou sofrimentos sociais, são mui amiúde aquelas que menos sabem utilizar as mídias digitais.  

É por todas estas razões que, na associação 3/6/9/12, convidamos a socializar nossa relação com as telas exatamente da mesma maneira como temos socializado nossa relação com o alimento. Num caso como no outro, temos a ganhar em equilíbrio pessoal e em serenidade familiar, e nossas crianças aprenderão sem crise e sem dor a ter uma boa gestão das telas. 

Serge Tisseron
Psiquiatra, doutor em psicologia
Serge Tissseron é psiquiatra, doutor em psicologia, diretor de pesquisas, membro da
Academia de tecnologias, pesquisador associado à Universidade de Paris (CRPMS).

Por Serge Tisseron

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